Diário do filme documentário sobre as pesquisas da Cia Teatro da Cidade de SJC/SP baseadas em Anton Tchecov.
O documentário é uma realização da Coágulo Filmes, SJC/SP.
Gostaria de publicar aqui também um artigo da Ana:
Um dia pensei em desafio, mas quando penso nisso em minha profissão, fantasio tanto, e quando este tal desafio chega não sei muito o que fazer com ele, porque acabei vendo que o desafio está mesmo no cotidiano, no corriqueiro, acabei percebendo com este novo trabalho desafiador o quanto viver é uma grande aventura. (Aliás, todo novo trabalho é um grande desafio).
E isso não está em pular de pára-quedas ou escalar uma grande montanha, a aventura desafiadora da vida está dentro de nós mesmos, é saber lidar com nossas angustias, é saber aceitar que diante de alguns fatos, e às vezes os mais simples nós somos ridículos. Sim somos ridículos!! E fazemos coisas que por muitas vezes não compreendemos, sim fazemos! Julgamos pessoas e situações. Sim Julgamos! Procuramos os grandes heróis da vida o tempo todo. Sim procuramos!
O Tchekhov tem nos ensinado muitas coisas belas e simples, “que talvez daqui a cem ou duzentos anos vão ser compreendidas”... A delicadeza do Samir, a maneira com que ele nos presenteia com personagens tão próximo de nós, e tão próximos do Tchekhov, muitas vezes, sem pretensão nenhuma, me lembra as histórias do Tam (Teatro de arte de Moscou) e a angustia de seus intérpretes, que muitas vezes não entendiam os textos do autor que eles tanto trabalharam.
E aí está ele novamente O Desafio, estamos a um mês de nossa estréia, e os desafios não param de chegar, acho angustiante, mas saboroso, porque acho que no fundo nós artistas gostamos mesmo é de ficar incomodados, de se sentir perdido pra se achar no palco, se reinventar a cada instante... E como eu gosto!
Mês de julho, recesso profissional, o inverno chega e aos poucos vamos, como se diz, colocando as coisas em dia. O que intriga é que sempre estamos colocando as coisas em dia. Todos sempre estão colocando suas coisas em dia. No meu caso, ainda há alguns livros perdidos na sala e no guarda-roupa, algumas fotografias de viagem em pastas erradas e outras filmagens em fitas mini-dv's e que eu não sei como editá-las. Ao largo disso tudo, o que me coloca em dia são essas filmagens do AAZ, e mais ainda a edição deste material.
Enquanto o teaser #03 está sendo renderizado, escrevo afim de dizer que as filmagens da última semana foram inquietantes, posto que as duas palavras que mais vi e ouvi foram "quietude" e "simples". A quietude foi muito dita porque a companhia já recebeu um primeiro texto para a criação do espetáculo e agora o processo trata de dramatizar aquelas palavras, isto é, é hora de traduzir em jogo cênico o que até este momento não existia: um discurso narrativo. E se houve algo cinematográfico nesta última semana de ensaios, foi justamente este bom conflito entre o verbo e a ação, ou como diria o poeta, entre a intenção e o gesto.
Além disso, até este momento do processo criativo, nunca se disse tanto "é simples". O curioso é que, atualmente, todos dizem "é simples" em algum momento - muito embora nada seja simples quando se está em movimento. O texto diz que é simples, os diretores dizem que 'é simples', os atores, quando se deixam ouvir a si mesmos, dizem que é preciso buscar o que é simples... A gente sabe que, às vezes, é preciso saturar o signo para que o significado seja sentido, ou ressentido, de uma maneira mais expressiva. Dizem outros que este tipo de atitude é típica do mal da virada deste século, 'a linguagem'...
Foi o diretor musical Beto Quadros quem disse, em algum momento nos ensaios, que não existe silêncio, e sim a quietude. E disso ele deve entender, afinal sua pesquisa sobre música russa tem nos impressionado sobremaneira, tanto ouso dizer que os elementos musicais são os mais coerentes deste processo criativo... Além dele, cito também outra grande cabeça, o Robert Bresson - o homem com a idade do século vinte -, que em sua indispensáveis "Notas sobre o Cinematógrafo" que chegou a afirmar que "o cinema está no silêncio".
Quanto aquilo que é simples, vejo que a única coisa natural e necessária - e portanto simples - é a criação.
Abraços! Fábio Monteiro
PS: E por falar em simplicidade e quietude, nossas saudações aquele que fez por merecê-las: Carlos R. (1935/2012)
Enfim! Encontrei a obra prima de Zoia Barash pelas ruas de Havana, mais exatamente a duas quadras da sorveteria Coppelia. Em meu último dia em Havana, empunhei minha inseparável garrafa d'água e me pus a andar pela rampa até encontrar Martin, um colega de EICTV que me indicou uma livraria José Martí logo abaixo da sorveteria. Para minha supresa, ela era vizinha de uma incrível doceria com ar condicionado e quitutes inéditos para a minha estadia de um mês na ilha. Assim foi que, após um 'flan' na doceria, fui até a livraria à procura de literatura de cinema e, logo de cara, duas senhoras muito simpáticas me entregaram quase toda uma estante de publicações incríveis - aos meus olhos brasileiros -, coisas como uma coletânea de artigos de cinema de Carpentier, uma biografia de Eisenstein e esta pérola acima, dentre outras.
Bem, ainda não tive a oportunidade de iniciar a leitura de Barash (1953 - ), ucraniana que viveu em Cuba a partir dos 1960. Mas pelo que conferi no índice, não nos faltaram referências sobre Anton Tchekov, isto é, sobre suas referências no cinema...
Antes de finalizar o artigo e correr para a leitura, informo: esta é a segunda edição da obra, 'revisada y ampliada' e datada de 2011, uma publicação recém saída do forno. E que custou a bagatela de 25 pesos cubanos...
O JOGO: Eduardo Coutinho finalizou "Moscou" em 2009, sendo esta produção uma continuação de suas investigações iniciadas em "Jogo de Cena" (2007), filme no qual ele vira a câmera para a plateia a partir do palco do teatro, tendo em primeiro plano uma sucessão de truques discursivos elaborados entre confissões reais e ficcionais.
Jogo de Cena foi um documentário muito bem recebido pela crítica, afinal, naquele momento, o discurso documental enfrentava sérias transformações de conteúdo e sintaxe com produções que desafiavam as noções de verossimilhança, factualidade e criação do real. Em outras palavras, é possível afirmar que, em escala internacional, os documentaristas estavam interessados em testar os limites daquilo que o documentário propõe como real e crível, também no sentido de fato histórico. E o Coutinho não escapou dessas experimentações, ao contrário, buscou se reinventar.
Jogo de Cena permitiu que Coutinho subvertesse a primeia lógica documental, a do sujeito-observador que busca seu objeto-observado. E fez isto publicando um anúncio à procura de pessoas afins de dar seu depoimento ao filme. Nesse sentido, o que houve, de fato, foi uma subjetivação do processo criativo por parte dos interessados que buscaram aquela câmera localizada numa sala de espetáculo carioca. Em um segundo momento, Coutinho convidou atrizes conhecidas e desconhecidas do grande público telespectador - e este é um fator decisivo para a experiência fílmica, embora não a desenvolvamos aqui - para que elas encenassem alguns depoimentos colhidos de pessoas ditas comuns.
AS CENAS: Bem, esta introdução pode nos ser importante para compreender "Moscou", afinal, como o próprio Coutinho afirma, ele mesmo se tornou uma peça secundária no processo de criação. Moscou é um documentário com cerca de 80' sobre o processo de criação do Grupo Galpão envolvido com "As Três Irmãs", de Tchecov. E, para tanto, Coutinho que estava acostumado a produzir entrevistas de 'maneira sistemática', teve que se posicionar de 'maneira randômica' a fim de coletar as mais de setenta horas de filmagem do para finalizar "Moscou". Além disso, ele afirma que o processo de edição foi fundamental para criar uma obra, posto que ela é cheia de sentidos.
Ao ver o filme, percebemos que ele se trata de um quebra-cabeça audiovisual, de um espelho fragmentado no sentido proposto por Silvio Da-rin em seu livro já clássico. Ao acompanhar o documentário, o que vemos não é somente a produção teatral - o que seria uma opção; também não é somente uma questão de refração semântica que revela o jogo duplo do diretor-dirigido, do realizador-realizado - o que seria uma segunda opção, mas talvez mais comum. O que se evidencia no filme é a incompletude do processo cinematográfico frente aos recursos teatrais: são as frestas criativas, os interstíticios discursivos, tudo aquilo que não pode ser capturado pelas câmeras, são estas coisas que ficam evidentes no filme. E este é o jogo revelador das ambiguidades envolvidas na relação entre cinema e teatro. E são ambiguidades porque o que é visto é filmado pode vir a ser realmente visto e conhecido somente no processo de edição.
AS EXPERIÊNCIAS: Assim, depois desses quatro meses de envolvimento com a Cia Teatro da Cidade, temos ainda cerca de quatro horas de filmagem. Nada comparável com as 70h de Moscou. Mas são estas quatro horas que nos permitiram identificar estes fatores decisivos entre o cinema e o teatro: acompanhar uma equipe de teatro a vinte e quatro quadros por segundo requer escolhas e decisões rápidas. Não há muito tempo para escrutínio, para uma investigação mimética, para a sensibilidade mais previsível. Podemos dizer que as filmagens são eminentemente cegas, posto que são muitos os sentidos narrativos que nos estimulam: espacialização, vocalização, gestual e preemências. Assim não há margem para a definição, mas sim para os erros; não há chances para o raciocínio, mas sim para os indícios de momentos com grande potencial de edição. Acompanhar uma equipe de teatro com uma câmera requer muito fôlego, silêncio, concentração e intuição. Uma vez dotados dessas qualidades, podemos não saber muito bem o que está diante de nós, mas certamente teremos um rico material para buscar os sentidos do filme em outra fase de produção, a edição.
Eis mais uma preciosidade sobre cinema russo, um caderno de estudos sobre as concepções de linguagens artísticas eisensteinianas desenvolvidas por um grupod e estudos do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa do DLO/FFLCH/USP. Ao clicar na imagem abaixo, temos acesso à integra do Caderno #01, cuja edição é intitulada "Tarkovskianas".
"... há uma grande diferença entre a imagem dos Soviéticos quanto ao seu
cinema (popular) e a imagem forjada pelos Ocidentais (cinema de autor
exigente): nos festivais estrangeiros, é dada importância aos que têm
diferendos com a censura, dada a degradação da imagem da URSS; o cinema
russo contemporâneo continua a sofrer com esta dualidade."
Mikhalkov
Desde o dia 16 de maio está ocorrendo o Festival de Cannes. E, como sabemos, ele será a grande vitrine para a nova produção de Walter Salles, a sua adaptação de "On The Road", de Jack Kerouac. Aliás, diga-se de passagem que esta adaptação era um velho sonho do Coppola, que hoje é o co-produtor da direção de Salles. Além disso, no que diz respeito ao cinema brasileiro, é importante destacar que o Festival deste ano convidou ninguém menos que Carlos Diegues para ser o presidente do Júri da Câmera de Ouro.
Mas o importante para nós aqui é tratar de cinema russo. Embora afastado nestas últimas semanas, a pequisa sobre o tema continuou ativa. Não é fácil acompanhar o ritmo de uma produção teatral. Ainda mais quando a Companhia é composta por gente tão fecunda como esta Cia Teatro da Cidade: acabamos sendo bobardeados por muitos estímulos a cada semana que passa! Enfim, enquanto eu lia sobre o Festival de Cannes, acabei encontrando um inestimável artigo sobre a história do cinema russo elaborado por ninguém menos que Nikita Mikhalkov, o diretor de "Ana, dos 6 aos 18" e, além disso, um dos últimos remanescentes dos grandes tempos do cinema soviético.
Além de ler o monumental artigo, clicando na foto abaixo temos acesso a um acervo de fotografias e desenhos raros de Eisenstein:
Eis o segundo teaser! Nele procuramos mostrar um pouco do mapeamento sonoro que anda sendo feito pelo grande Beto Quadros em busca das paisagens sonoras para o espetáculo. Através de conversas com ele, foi fácil perceber que o músico anda integralmente imerso no universo musical russo, tanto naquele das canções populares, como no impactante repertório de clássicos de cabeças como Mussorgsky e Shostakovich.
Para embalar a pequena trilha sonora em execução, acompanhamos a preparação da nova cena do trem, aquela já vista no primeiro teaser, e que tem sido um dos temas condutores da companhia para desenvolver suas leituras de Tchekov.